segunda-feira, 16 de março de 2020

onde habita a sabedoria?




"De onde vem, então, a sabedoria? Onde habita o entendimento? Escondida está nos olhos de toda criatura viva, até das aves dos céus. A Destruição e a Morte dizem:  Aos nossos ouvidos só chegou um leve rumor dela. Deus conhece o caminho; só ele sabe onde habita, pois Ele enxerga os confins da terra e vê tudo o que há debaixo do céu. Quando ele determinou a força do vento e estabeleceu a medida exata para as águas, quando fez um decreto para chuva e o caminho para tempestade trovejante, ele olhou a sabedoria e a avaliou; confirmou-se e a pôs a prova. Disse então ao homem: No temor do Senhor está a sabedoria, e evitar o mal é ter entendimento." Jó 28: 20 - 28

Eu sei, eu sei - o livro da sabedoria é o livro de Provérbios. Mas acho incrível quando conseguimos tirar uma dose de sabedoria e aplicação pessoal em cada capítulo da palavra de Deus. Nesse contexto, os amigos de Jó conversavam sobre quem seria justo e sábio aos olhos de Deus - ninguém, nenhum homem sequer. Como diz o texto bíblico: "como pode então o homem ser justo diante de Deus? Como pode ser puro quem nasce de mulher? Se nem a lua é brilhante e nem as estrelas são puras aos olhos  dele, muito menos o homem será, que não passa de larva, o filho do homem que não passa de verme." - Jó 27.

Se nós não a temos sem esforço, onde está a sabedoria? Nos discursos políticos que usam a teologia e o próprio Jesus como justificativa de seus próprios pecados e imparcialidade? Nas nossas palavras, às vezes consideradas tão sábias por nós mesmos, no calor de discussões? Na nossa postura cheia de arrogância por um conhecimento humano que não passa de um sopro? Com base bíblica, eu terei que discordar de tantos. A sabedoria não está nos homens - pelo contrário, somos imprudentes e insensatos, na imensa maioria das vezes. Homens crentes e não crentes, justos ou injustos, santos ou impuros - não há sabedoria. É por isso que matamos uns aos outros, ferimos uns aos outros e sem nenhum pudor usamos tudo o que há em nós para nos mostrarmos mais justos, mais inteligentes, com discursos mais coerentes. A troco de que? a sabedoria não está nos homens. Nada disso faz sentido.

A sabedoria não caminha nos nossos passos errados justificados por nós mesmos. Penso que a sabedoria é tão pura que só poderia ser obra do nosso santo Deus - só Deus sabe onde ela habita. Ele mesmo, que determina a força do vento, mede as águas, decreta a chuva e abre o caminho para tempestade. O detentor de toda sabedoria. Nada adianta sermos sábios aos olhos humanos, cheios de filosofias vãs e orgulho "santo". A sabedoria de Deus é inalcançável - pelo menos, assim pensava eu antes de ler Jó. No entanto, Deus diz ao homem: "no temor do Senhor está a sabedoria, e evitar o mal é ter entendimento." Evitar o mal nesse mundo tão cheio dele e temer ao Senhor - esse é o segredo para um vida cheia de sabedoria das boas. Confesso que longe estou, permaneço perto das filosofias vãs, mas oro pra ser cada dia mais temente ao Senhor, evitando o mal e tendo real entendimento das situações e das minhas reações.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

será que eu sirvo?



Amanda, 8 anos, chega a emergência com uma história de trauma de 2 metros de altura de um brinquedo do colégio onde estuda. Apresenta sinais de rebaixamento de consciência, ou seja, se encontra sonolenta e falando palavras sem sentido. Ela vem acompanhada pela vó que muito nervosa não consegue explicar direito o que aconteceu. Eu, que antes era expectadora da situação não consegui me conter e tive que participar do atendimento de trauma pediátrico num serviço quase 100% de pacientes adultos. Era o meu primeiro, depois de alguns plantões naquele serviço. Me vi totalmente envolvida na situação. Levamos a menina tão linda com suas duas trancinhas e roupa escolar pra TC. Durante o exame a mãe chega chorosa e aflita pela menina; e eu tenho que me controlar pra não chorar também. Fico pensando que talvez eu não sirva pra esse negócio de Medicina não, mas não tenho tempo de pensar isso na hora. Enquanto aguardamos o resultado da TC, internamos a criança para observação e investigação do quadro. 

Enquanto eu vou e volto resolvendo alguns assuntos burocráticos encontro alguns familiares de Amanda pelo corredor aflitos por uma posição médica e eu, que ainda não era, me esforçava pra lembrar de tudo que haviam me dito e o que eu lembrava de ter estudado. Não consigo nem terminar meus pensamentos e falas um tanto confusos, sem certeza, e volto pra sala amarela. Lá vamos nós pegar o acesso da linda menina agora com suas tranças desfeitas - e como é difícil e angustiante ouvir criança chorar. Ainda mais uma mocinha tão frágil por tudo o que tinha acontecido. Mas permaneci lá, tentando não chorar junto e juro que não chorei. Ufa! Conseguimos de primeira.

Respiro aliviada enquanto caminho pra buscar uma nova gaze em outra sala e esbarro com o pai, aos prantos. Explico que só pode entrar uma pessoa por vez na sala e ele chora ainda mais. Tive que deixar ele entrar.
 - "mas só por cinco minutos tá bem?"
"- muito obrigada, doutora!" 
Tento explicar que eu não o sou, mas ele já está entrando na sala. Vou e volto mais uma vez. No caminho mais uma vez sou parada por uma senhora em prantos, procurava pela netinha dela Amanda. Ela soubera do acidente há pouco e precisava ver a neta. Vontade de chorar mais uma vez presente, pensando na minha vó. Eu sei que não devia, mas só consigo pensar na minha vovó - estaria do mesmo jeito. 

E lá vou eu, deixar mais uma pessoa sem permissão entrar. Mais uma vez penso que não sirvo pra isso. Eles entram, se falam, se beijam, choram pela criança que não consegue reconhecer muito bem os mesmos. Eu aguardo os dois minutos prometidos e lá vou eu, fazer a coisa mais difícil pra mim, pedir para os familiares deixarem apenas um no quarto. Eles tem algumas perguntas que eu respondo, em parte e com cautela. Na saída, a senhora me abraça e chora, me diz que eu não sei o bem que fiz a ela. "Você é a Pediatra né? Minha filha, muito obrigada." Eu não era, não sou. Mas a pergunta ecoou na minha cabeça e me fez pensar na Clarissa de alguns dias atrás tão duvidosa de algumas certezas anteriores. E agora a resposta divina havia vindo dos lábios de uma senhora agradecida, no momento abraçada a mim. Acho que nunca vou esquecer esse dia. No meio do caos, Deus ainda responde dúvidas, ainda cuida de nós. Amanda foi recuperando depois de um tempo a consciência, mesmo que sonolenta, e eu quando pisei fora do hospital chorei tudo o que não tinha chorado lá dentro. Talvez eu sirva pra esse negócio de Medicina.

p.s nome fictício da paciente 

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Escala de dor



Hora de ir embora, finalmente, depois de um dia sem muita ação no CTI pediátrico. Eu cansada estava pela semana intensa e pelas noites mal dormidas. Enquanto tirava o jaleco pra ir pra casa, sobem duas crianças, duas novas vagas cedidas. Coloquei o jaleco de novo e fui ajudar. Nem tanto como eu gostaria, o internato é cruel as vezes. Escolhi ficar perto de um menininho, 2 anos, chorava muito e queria mãe. Normal, quem não ia querer. A mãe havia descido pra resolver questões burocráticas da internação. Era uma Insuficiência Respiratória, quanto mais ele chorava, pior ficava. Fizemos as coisas mesmo assim, porque  precisávamos tratá-lo. Fiquei ao lado dele, tentando não atrapalhar mais que ajudar.

De luvas e capote comecei a acariciar sua cabeça; ele continuava a chorar. Eu falei: "olha aqui pra tia" - ele olhou. "Vamos respirar: cheira uma flor e sopra uma vela". Ele fez, enquanto chorava ainda, mas foi fazendo. Já estava mais calmo quando as médicas residentes vieram colher um exame de sangue necessário. Só de ver os tubinhos ele voltou a chorar. Olhei bem pra ele e perguntei se ele queria que eu cantasse. Ele disse que sim. E eu fui desenterrar da minha memória afetiva a música que minha mãe cantava pra eu dormir, todas as noites. Ela diz assim: "cativar é amar, é também carregar, um pouquinho da dor, que alguém tem de levar". Ele gostou da música. Resmungou um pouco enquanto colhiam o sangue, mas dormiu. Ele dormiu enquanto o furavam pela segunda vez pra colher a gasometria.

Depois fiquei pensando, a gente estuda tanto sobre escala de dor, sobre analgésicos potentes, sobre bloqueadores neuromuscular, etc, e essa criança só precisou de uma música como conduta analgésica. Nada contra os medicamentos, pelo contrário, eles são extremamente necessários e bem indicados em muitos casos, mas, de vez em quando, a gente precisa lembrar o que um dia acalentou os nossos próprios corações pra fazer o mesmo com os outros.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Deserto



         
       
         Caminho mais um pouco tentando ir mais adiante, mas não vejo nada novo. É tudo tão igual, tão quente, deserto e doido. Eu não sei se eu consigo. Deus me ajuda, por favor. Há quanto tempo estou aqui? Duas semanas eu acho, mas talvez mais. Não durmo direito, não como direito, não saberia mais dizer com precisão. O que aconteceu? Tanta coisa, como é possível tanta coisa ter acontecido em tão pouco tempo. Sento, tento encontrar algum lugar pra descansar. A primeira noite mal dormida é só o prenuncio de uma nova. Fecho os olhos, tento relaxar. Não consigo, não posso parar. Se parar eu caio e eu não tenho tempo pra cair; levantar demora. Mesmo assim, tempo não é a coisa mais importante que me falta.


                Quantas coisas difíceis podem acontecer em duas semanas? Meus limites foram superados nas minhas duas últimas.  A rotina já é demais, com os problemas que se seguem é quase impossível não ter crises assim, os meus desertos. Já passei por alguns, mas confesso que a cada um que vivo, eles se intensificam em mim. Os desertos são diferentes das tempestades as quais já descrevi. Nos desertos, cada grão de areia é uma coisa em mim que eu preciso mudar pra ser melhor, pra me sentir melhor. Cada grão de areia é uma pessoa que eu preciso cuidar. Cada grão de areia é um sonho de Deus pra mim. No entanto, o deserto é cruel – você conhece seus objetivos, deslumbra seu futuro, mas não é capaz de lidar consigo mesmo.  Eu ainda não sei o que fazer com tanta areia que me cansa, mostra minha pequenez e me torna incapaz.

Nesse ponto não adianta mais andar, eu fecho os olhos com força pra que nenhum grão de areia permaneça à minha vista. E eu oro. No deserto, nas tempestades ou na calmaria, eu oro. É quando de longe eu vejo, quase uma miragem, um Oasis. Lá o Príncipe da Paz me encontra, me alimenta, me traz descanso e conforta o meu cansado coração. Ele diz: vinde a mim, vocês que estão cansados e sobrecarregados e eu vos aliviarei. E eu sinto, o alivio dos meus fardos mais pesados que eu.  E ali mesmo, eu oro mais uma vez pedindo que o Oasis que vive no meu deserto, se torne o mar da praia. E nessa semana de descanso, no meu Oasis, eu sinto a praia sendo feita. Eu sinto meus grãos de areia todos sendo balanceados com as gotas da água, que no caso são as misericórdias de Deus. Eu sinto o calor das minhas responsabilidades sendo envolvido pela brisa do mar que é a Voz do Senhor que me guia por meio delas. Já quase na praia, eu sinto paz.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Pátio



Estava eu a caminhar pelo meu condomínio, com pressa, atrasada como sempre, quando eu vejo duas meninas pequenas e lindas correndo na minha direção com um tom meio aflito nos olhos e nas falas que se seguiram. Era uma noite de domingo, a única na semana na qual eu tentava sair de casa um pouco mais arrumada.  Eu ouvi quando elas ainda cochicharam ainda correndo vamos perguntar pra aquela moça. Fiquei pensando em quando eu tinha virado moça. Outro dia eu era a criança que brincava com meninas parecidas, um pouquinho depois a menina simpática do elevador, e de repente, eu era a moça. Fiquei preocupada com a dúvida que viria; se fosse alguma pergunta específica para adultos com certeza não saberia dizer. 

  "moça, moça, você pode nos ajudar? Estamos perdidas."

        Perdidas no condomínio que nem é tão grande assim, nisso eu podia ajudar, ainda bem. A menor das meninas já estava em prantos, enquanto a mais velha tentava manter a calma e ser de fato a mais velha. Eu disse que ajudava e me pus a andar com as meninas pelo meu condomínio nem tão grande assim. Nos minutos que se seguiram elas me contaram sobre a esquecida brincadeira de pique-esconde que terminou com as meninas perdidas pelo  condomínio. Andamos uns 20 metros até que elas viram a entrada agora já reconhecida e emocionadas começarmos a gritar "é ali!". Eu ri porque elas com certeza conseguiriam achar sem mim. Elas se puseram a correr o mais rápido que conseguiam até a entrada até que a pequeninha voltou, abraçou minha perna e voltou a correr. De longe eu ouvi os gritos agradecidos das meninas: "obrigada, moça". De nada, eu respondi.

                Continuei andando na mesma direção que elas, sendo que as mesmas já tinham desaparecido de novo. Depois de alguns minutos, já que não faz mais parte das minhas habilidades correr (talvez nunca tenha sido) cheguei à entrada do condomínio. Enquanto esperava, uma moça (essa era moça de verdade, não igual a mim) gritava “onde vocês se meteram? É pra brincar perto de mim”. Elas repetiram a mesma história trágica de antes de como haviam se perdido durante a brincadeira. Apontaram pra mim e eu ouvi quando disseram “aquela moça nos achou”. Achei? Levar aquelas meninas até a portaria não foi nada demais, no entanto, pra elas foi salvação. Crianças se perdem mais facilmente que os adultos, é verdade, mas elas são achadas de uma maneira que os adultos não são. 

sábado, 5 de agosto de 2017

Vista

Vista do HUCFF, 1° de agosto de 2017, por Clarissa Reis

Acho que prefiro não mais escrever, tenho aquela velha desculpa da falta de tempo, não que esse seja o motivo real. A vida é dura, mas esse também não é motivo. A vida não é tão dura pra mim. Eu cresci numa casa cercada de amor, cresci nos caminhos do amor que Cristo nos ensina e tenho um bom futuro à minha frente. Não escrevo porque eu não sei. Não sei escrever sobre as grandes lutas de terceiros e as minhas já não tão grandes, nem tão tristes. Tudo o que eu sempre posso dizer é o que eu senti ao ver determinado sofrimento e isso já não é tão real ou interessante quanto a própria história de superação.

Então decidi contar histórias, por que se existe uma coisa que eu sempre fiz bem foi drama. Mas hoje, no caso, já comecei divagando sobre a vida e é difícil mudar de estilo literário no meio do texto; como eu já disse, não sei escrever. Tudo o que me resta, como sempre, sou eu mesma e as minhas crises repetitivas e tão doidas, sempre. As dessa semana foram tão incríveis como todas as outras. A vida na faculdade é difícil, e como eu não posso me ater a experiências que não são minhas, a minha vida na faculdade é difícil. Mas não tão difícil quanto a vida de outras pessoas que vivem temporariamente na faculdade que no caso é o hospital.  

Eu entendo que eu e minha sensibilidade excessiva sofreremos bastante nesses próximos anos. Segunda semana de ciclo clinico e eu já chorei algumas vezes encarando a vista do HU, pedindo a Deus misericórdia e graça pra eu poder crescer sem quebrar de vez. Mas meus ossos não são de vidro, tenho vivido sempre. A clínica é ótima, soberana, essas coisas todas. O que ninguém te conta mesmo é o que fazer quando sua pergunta da anamnese faz seu paciente chorar, quando seu exame físico causa dor, quando sua presença incomoda. Não quero que pareça que não somos ensinados, os professores são incríveis e se aprende muito, muito mesmo. No entanto, existem coisas que a gente precisa sofrer pra aprender. Eu sou eternamente grata pelo ensino e espero ser eternamente humilde pra aprender até onde minha presença é necessária. Nessas últimas semanas, recebi sorrisos, choros, gemidos e dor; uma mistura de tudo o que define a fragilidade humana. A vida humana é tão frágil, e é esse o motivo.

quarta-feira, 8 de março de 2017

maresia

    Senhor, o que queres de mim? Eu não consigo ouvir  na multidão de tantas vozes ao meu redor. Eu escrevi uma vez que o mar agitado era mais bem visto por mim do que a calmaria dos dias, como eu fui ingênua. Esse é um sentimento constante. Ai, Pai, eu sinto tanto por não ser, tem tanto que eu não sou. Na calmaria dos dias, eu podia te ver e te sentir. Sim, eu sentia também a minha inutilidade e a falta de propósitos. Durante muito tempo eu achei que esse era um sentimento específico da calmaria e assim, eu superestimei a inquietude. A vida não é assim. Mesmo quando eu me sinto útil, mesmo quando eu vejo meus propósitos, a vida dá um jeito de nos tornar incapazes, incompletos, insuficientes. Mais do que isso, ela não nos torna, ela só nos expõe, já somos, já sou - eu e minha mania de falar por todos. 

  O mar agitado me assusta agora, me faz sentir saudade da calmaria, de quando eu escutava tua doce voz. O mar agitado não me ajuda a traçar prioridades, a pensar nos outros, a ser feliz; essas são tarefas de minha responsabilidade e isso assusta mais. O mar agitado não me deixa ser boa nas tarefas, não ajuda na prova da minha suficiência, não ajuda no sentimento de realização. A calmaria também não ajuda em nada disso. No entanto, nela, eu consigo ouvi-lo melhor e sentir o consolo da minha dor. Nela, eu consigo ouvir o seu chamado, e Ele sempre diz, "eu te chamei pro mar agitado". 

    Cá estou eu, no mar agitado, lutando todos os dias pra não afundar.  De todas as lições que o mar me ensina, a dependência exclusiva do Senhor é a que eu mais vivo. As vezes gosto de pensar que estou acostumada as peculiaridades da vida, mas não é a verdade. Quando eu passo a reconhecer as minhas verdadeiras (e muitas) limitações, a dependência de Cristo me atinge. E então, só então, eu posso sentir a brisa das águas calmas chegando.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

uma menina na praia




Ontem eu vi um casal na praia. Não era manhã, nem noite, era o momento exato do sol se pôr em um dia do verão. Enquanto todos iam embora depois de um dia exaustivo entre o mar e a areia que o segue, nós, eles e eu, chegamos.  Provavelmente, viemos de lugares diferentes e depois dali seguimos caminhos separados. No entanto, eu percebi há um tempo que da vida nós tiramos apenas os pequenos momentos que nos marcam. Eles podiam ser só mais um casal, e eu, só mais uma menina sonhando com um, mas ao invés disso, eles se tornaram bem mais porque me cativaram. Eles chegaram e sentaram bem na beirinha do mar; ele carregava as bolsas e as cadeiras, e ela, um bebê na barriga. Eu nada carregava nem cadeira, nem bebê.
Existem esses momentos únicos quando a natureza divina dá um grande espetáculo de beleza onde todos ao redor são envolvidos com um enorme sentimento de extasia. Nesse caso, não foi só isso. Existem outros momentos, mais únicos ainda, em que a beleza da natureza se encontra com a beleza da relação humana.  Ela levantou e colocou os pés na água, enquanto ele fazia duas coisas. A primeira era tirar fotos dela com a barriga e o pôr do sol, coisa linda de ver, e a segunda era dar beijinhos na barriga quando ajoelhava na areia pra tirar as já mencionadas fotos, coisa mais linda ainda de ver.
Fiquei encantada, de todos os jeitos que uma pessoa pode ficar ao ver espetáculos assim. Fiquei pensando um bom tempo sobre e decidi compartilhar uma das cenas de amor e carinho que eu presenciei. Depois disso, eu me ofereci para tirar fotos dos dois, em parte porque as tentativas deles de foto em conjunto pareciam frustradas e em parte porque eu queria sorrir pra eles e perguntar se eu podia fazer pare daquele momento, nem que fosse desse jeito mínimo. Eu fiz. Tirei algumas fotos, disse palavras gentis e me retirei. A verdade é que ser expectadora de longe é bem melhor e que até a melhor sessão de fotos cansa. Eles sentaram de novo e eu não mais os olhei, até a partida. Ela me olhou quando eu estava indo, sorriu e disse que as fotos tinham ficado ótimas. Fiquei feliz. Fiquei pensando que talvez um dia aquele bebê visse as fotos e perguntasse aos pais quem as havia tirado. Eles responderiam “uma menina na praia”. Serei feliz com essa vaga possibilidade.


domingo, 27 de novembro de 2016

Atenção primária à minha saúde


        Nos primeiros anos da faculdade de Medicina, aprendemos muito pouco do que a Medicina em si é. No terceiro período, no entanto, temos essa matéria pratica chamada atenção integrada à saúde, AIS. Nela nós acompanhamos consultas, visitas domiciliares e procedimentos, em alguma clínica da família. Tem sido uma grande experiência –  a mais pratica, a mais humana que eu vivi na faculdade. Existem muitas histórias tristes que ouvimos, muitas vezes em que seguramos o choro pra não nos mostrarmos não aptos tão no começo da faculdade.  Dentre todos os pacientes, acompanhei a consulta de uma. Uma menina, uma mulher. Entrou no consultório, não aparentava ter mais de 25 anos, estava grávida. Minha primeira grávida, que emoção. Eu costumo dizer que eu sabia que o meu propósito de vida era cuidar de crianças, antes mesmo da Medicina. Eu queria pediatria, antes de querer medicina. Procuro não pensar muito nisso ainda. Enfim, fiquei muito feliz de acompanhar pela primeira vez, de tão pertinho, um bebezinho. Ela estava no final da gravidez de um menino. Pensei que talvez o nome dele pudesse ser Pedro, então na minha cabeça ele é o Pedro.  Ela parecia bem e feliz.
A médica faz perguntas pertinentes à gestação e acompanha suas ultras, exames e histórico pelo sistema. Depois disso, vamos ao exame físico, ela sobe a blusa e abaixa a calça. A médica palpa sua barriga e pede que nós sintamos os limites do útero na paciente. Quando é minha vez de sentir, o bebê chuta e eu o sinto. Eu senti tão mais que o chute. Sempre soube o que queria ser, mas sentir é outro estágio de aceitação que eu ainda não tinha chegado. Mas esse bebê, o Pedro, me fez sentir. Sentir a minha real responsabilidade no mundo. Sentir o grande propósito de Deus pra mim. Depois ouvimos seu coraçãozinho, batia tão rápido, o que é normal. Eu fiquei pensando na quantidade de vida naquele pedacinho de gente. Fiquei pensando em como seria ser futuro. Pensei nas oportunidades que ele teria, e na vida que ele levaria. E ali, ali mesmo, orei por ele. Pedi que Deus o fizesse feliz, que lhe desse amor. Eu não disse nada disso pra ninguém ali, nem acho que nosso papel como profissionais da saúde seja esse. No entanto, eu realmente espero que a vida seja gentil com o Pedro e que ele seja feliz. Ele me deu o que eu tanto esperava e agora eu sigo um pouquinho mais confiante no meu próprio futuro.  
Ele cuidou de mim, antes que eu pudesse cuidar de qualquer um. Eu sei que esse é só o começo de muitos casos que trarão grandes reflexões assim. Espero que eu saiba aprender em cada um deles. Espero ser uma boa médica, espero cuidar bem das pessoas, do jeito que o Pedro cuidou de mim.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Desperdício


Eu, que durante tanto tempo acreditei no propósito maior da linguagem, trazia agora a carga de tê-la usado sem pudor. Eu, que acreditei tanto no amor, não fazia dele um bom proveito. Sempre me questionei em relação aos desperdícios que eu fizera na vida, esse era só mais um deles. Andava na rua tentando não sucumbir em melancolia – pelas coisas ditas, pelo amor vivido. Se antes no amor eu vivia, agora nem vivo mais. Existia apenas. Levava os dias existindo neles, nunca apreciava demais alguma atividade ou me deixava ser entristecida por outra. Caminhava, porque caminhar faz bem. Comia, porque era essencial. Sorria, porque, às vezes, era inevitável. De resto, eu nada fazia.  

A vida era dura demais para minha sensibilidade sem limites. Nenhum desastre havia acontecido; eu apenas me esvaia na ilusão das minhas questões, mais uma vez. Pensava em tudo isso sentada nas cadeiras de uma praça qualquer, enquanto pulava mais uma refeição no dia. Eu vi crianças brincando em um parquinho próximo, e me esvai na pureza de suas risadas. Eu vi idosos fazendo exercícios, e me esvai no amor que eles tinham pela vida. Descobri que era uma atividade prazerosa e então, observei cada pessoa que passava e as admirava por algum motivo qualquer. Dentre todas as coisas que eu poderia fazer me esvair na felicidade alheia foi o que eu escolhi.

Eu sentava no mesmo lugar, no mesmo horário, todos os dias, e sorria. Sorria porque era sempre inevitável. Os idosos me chamavam pelo nome e eu brincava com as crianças todas as tardes. Redescobri o amor pela vida. Percebi que o maior desperdício era viver sem ser feliz.