quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Tudo o que me falta

      As férias acabaram, talvez nunca tivessem começado. Refiro-me, no entanto, à algo ainda maior do que as simples férias escolares. Minha habilidade de descrever metáforas é limitada, mas ultimamente venho pensando no quão adormecida minha vida era. Entrar na faculdade despertou tudo o que dormia, e ainda fez-se criar diversas outras coisas que não existiam. Tenho me descoberto permanecendo quem eu sempre fui. Que estranho pensar assim, talvez você diga agora. Quando você assume que tudo é, nada mais é. Foi estranho andar pela primeira vez nos corredores, fui estranho me sentar nas primeiras aulas, conhecer pessoas, experimentar coisas novas. A partir de um ponto especifico, que me pego tentando definir, tudo antes estranho passou a não ser. Menos a minha específica pessoa, essa, se um dia foi estranha, continua sendo.

     Estou tentando dizer muitas coisas, talvez não tenha entendido nenhuma delas. Peço perdão, eu avisei da limitação das minhas metáforas. Tentarei me manter ao simples; a vida vai bem, difícil, mas bem. Tenho estado triste algumas vezes, felizes em outras. A agitação da vida a torna mais simples de ser reparada. Eu disse reparada, e não vivida. A vida é difícil de ser vivida; dizem que as dificuldades modelam nossas virtudes, espero que sim. Tento me ater as verdades que eu conheço, as que são mais do que suficientes pra me manter sã. Eu tenho a Deus, minha família e amor, muito amor. Amor pelas pessoas, pela profissão que o Senhor escolheu pra mim, amor por todos os meus amigos queridos.

   Eu disse a você que tenho medo de não ser suficiente, em alguns momentos é verdade, em outros não. É um sentimento difícil de se viver com, uma vez que vai contra tudo o que Deus já fez por mim. Tenho aprendido que algumas lutas precisam ser contra nós mesmo. E assim tenho feito, e continuarei enquanto o Senhor me der forças. A falta de tempo me incomoda um pouco, mas presumo que seja mais uma das coisas estranhas que depois não mais será. Queria dizer mais um milhão de coisas, mas agora você sabe, me falta tempo.  
                                                     Clarissa.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Sobre o amor

  Sempre nos dizem sobre a qualidade do amor e da sua maravilhosa essência; creio eu que não nos dizem que a essência se esvaia e que a qualidade, às vezes, é só um deslumbre. Gostaria de dizer que meu intuito não é discutir sempre o que é o amor, pois é um assunto inesgotável, e me tornaria no mínimo entediante; entretanto, sempre me pego voltando para o mesmo. Isso acontece porque eu realmente acredito que amar seja a chave para a construção de um mundo melhor. E, caro leitor, acredite quando eu digo que seria muito mais útil me ater aos fatos e ser assim uma boa cronista; ter entre minhas milhares de crônicas apenas algumas dezenas sobre o amor, como excelentíssimo Rubem Braga. No entanto, é com imenso pesar que digo que dentre as milhares de crônicas do Rubem, as minhas favoritas continuam sendo aquelas poucas.

   Eu sinto vontade de chorar pensando nas tantas coisas que ainda podem acontecer, faz parte de mim me emocionar por futuros tão distantes quanto irreais. Culpo os filmes, livros e poesias que tendenciam nosso coração, já disposto a viver uma vida sossegada, a sonhar com os mais subjetivos atos de amor; tão subjetivos quanto irreais. Não que eu seja pessimista, ainda acredito no amor. No entanto, a realidade me leva quando possível. Sempre que me vejo sendo levada pelo ceticismo ou pela utopia, abro os olhos e tento procurar exemplos reais do mais lindo amor que existe. E existe, bem perto até, no quarto do lado eu vejo meus pais dançando ou sorrindo.

   Ali, naquele instante, tudo acaba. Minhas duvidas e questões sobre o amor são substituídas pela certeza da sua pureza e existência. Talvez algum dia eu tenha minhas próprias experiências amorosas para aqui compartilhar, por enquanto permaneço extasiada com a beleza dele.  

domingo, 29 de novembro de 2015

Uma menina de laço azul

     Difícil pensar em algo mais querido do que o falar. Naquele momento, no entanto, o silenciar fazia total sentido. Jamais poderia dizer a ele o que foi presenciar aquele olhar. Eu sabia o que significava, eu sempre o via de longe e nunca tinha sido pra mim. Mais uma vez, não era. Não queria estar ali, mas estava. Eu olhava no fundo dos seus olhos na esperança de estarmos juntos, compartilhando do mesmo universo lúdico, talvez. Não importava muito, existiam outras bilhões de coisas que compartilhávamos. E ainda havia o mistérios das outras que ainda não sabíamos. Precisava não pensar agora, precisava sair. Sair pra onde? - eu pensava. Nada dizia.

    Nada fazia também; existiu um período de tempo no qual eu fiquei estática, esperando que ele me dissesse o que tinha sido aquilo. Ele sorriu e disse ali o tamanho do seu amor. Não por mim, nunca por mim. Quis chorar, "você não pode chorar". Olhei ao redor. Vi uma menina de laço azul nos cabelos finos; ela encarava uma das muitas lojas de brinquedos a frente. Não queria todos, como o resto das crianças. Eu conseguia vê-la apontando um, repetidamente. Daria qualquer coisa pra trocarmos de lugar, só naquele momento.

   "Você não vai dizer nada?" - ele disse. Não queria dizer nada, e então, sorri. Tentando transmitir algum tipo de mensagem contrária no mais expressivo ato de contentamento. Talvez ele conhecesse meus sorrisos tanto quanto eu conhecia os dele. Nada falamos, morri por dentro. Olhei ao redor. Vi uma menina de laço azul nos cabelos finos; ela sorriu - por favor, sorria pra mim, eu pensava. Ela, no entanto, o olhava, enquanto o mesmo fazia a melhor de suas caretas. Eu ri, a menina também. Ela acenou e eu quis ir com ela. Talvez nos divertíssimos juntas com o seu mais novo brinquedo; pelo menos, uma de nós estaria rindo.

domingo, 25 de outubro de 2015

Não me deixe

Quando eu era criança, minha mãe colou estrelas no meu teto
Eu gostava de olhar as tais
Nunca me disseram que elas eram reais
Porque, na verdade, não eram

Elas iluminavam o meu quarto
Do mesmo jeito que as outras iluminavam o espaço
Nunca disse a elas que eram falsas
Porque, na verdade, não eram

Talvez elas tivessem menos contempladores
No entanto, ninguém nunca amou estrelas como eu amei aquelas
Que grandes afastadoras de temores


Lembro também quando elas mesmas se foram
Quando minhas estrelas se foram, minha mãe colou nuvens na minha parede
Eu as amo tanto quanto amei minhas estrelas

Tinha estrelas, quando ninguém mais as tinha
Tenho um céu, quando ninguém mais o tem
O brilho das minhas constelações nunca permitiu que eu temesse a noite
O azul do meu céu nunca permitiu que eu temesse as manhãs

Não me deixe sem estrelas
Não me deixe sem nuvens
Não me deixe 

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Janela



            Fui até a janela experimentar minha dose diária de luar e de um céu escuro nem tão estrelado quanto o esperado. Tudo era igual à noite anterior; os mesmos carros e prédios perdidos na imensidão de prédios e carros do subúrbio carioca. Deixei-me ser carregada pelas reflexões de um dia turbulento e cansativo. Como consequência, meu olhar se esvaiu na grandeza das nuvens abatidas que destoavam o azul escuro da noite. Fiquei assim por alguns minutos até que as luzes do prédio vizinho me chamaram atenção. Havia algumas delas acesas, mas em apenas uma existia um homem. Parado, imóvel. Olhei algumas vezes antes de garantir que não era um boneco ou algo do tipo.  Talvez estivesse me olhando com a mesma intensidade que eu o olhava, não saberia dizer.  Poderia ser qualquer um, poderia ter qualquer vida que eu quisesse imaginar. Primeiro pensei na possibilidade de ser, obviamente, meu grande amor. Não havia inspiração suficiente.
           Então pensei que talvez ele pudesse ser o amor de outro alguém. Ela não estava ali, onde ela estaria? Longe, tão longe que o simples ato de encarar a noite o fazia lembrar-se do imenso mundo se comparado ao seu ínfimo amor. Na verdade, seu amor era ínfimo apenas se comparado a isso. No que diz respeito às muitas outras comparações, ele era em tudo maior. Talvez, ambos perderam-se na vasta imensidão do próprio amor. Ele olhava as (poucas) estrelas imaginando que ela as olhava também. Ela assim não o fazia. Ao contrário, estava em casa, dentro dela, trabalhando quando não devia para nunca olhar as estrelas. Ela não poderia.
                Ele não sabia disso. Alguém chegou ao quarto, alguém o abraçou, o beijou. Senti-me mal pela menina. O que havia acontecido com o vasto amor? Perdeu-se em si. Estava ofendida demais para continuar na janela. Um amor finito é ruim se vivido na realidade; se, no entanto, é vivido na fantasia é ainda pior. Fui dormir, cansada das minhas desconstruções, torcendo para que não sonhasse.  


sábado, 26 de setembro de 2015

Desconstruir

Guarde a essência de quem você é
Em um lugar que sempre possa achar
Pois ninguém na vida o faz por você

As pessoas estão centradas em ser, ter
Tudo o que lhes faz feliz
Eu, no entanto, esses dias aprendi
Que é muito mais difícil não ter, não ser
E mesmo assim, ser feliz

Agora, por exemplo, estava pensando nas futuras rimas
E nenhuma tenho
Não que seja um grande exemplo de desconstrução
Mesmo assim, estou feliz

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Só o sol


Eu sinto mais falta do dia a dia porque eu não o tenho mais 
Escrevo sempre porque nada tenho mais
Nada tenho ainda
A diferença entre o antes e o depois é só uma linha

Não a cruzaria
Prefiro estar onde tudo ainda precisa ser resolvido
Onde nada do que já foi pode ser mudado
Como anda a vida em sua calmaria?

Não sinto mais as ondas
Ando anestesiada pela inércia do mar, talvez nem esteja mais nele
Procuro a beleza na vida parada
Confesso que é mais fácil a ver no movimento
Não sinto mais o barco, só o sol
Não sinto mais a brisa, só o sol
Não sinto mais a mim, talvez eu seja o sol

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Olhar listrado, casaco verde

                 “Desculpe senhora, não temos mais esse modelo. Edição especial.” É verdade, tinha sido uma edição especial. Eu e a balconista concordávamos, por mais que estivéssemos falando de coisas absurdamente diferentes.  Sai da loja desapontada com mais coisas do que eu esperava. Talvez eu não tivesse a capacidade, talvez fosse só o medo. Jamais saberia agora o que poderia ter acontecido. Não existem maneiras de prever o que não foi, de explorar possibilidades do que não existe mais. Como aprender a questionar o não há mais necessidade de o ser. A vida havia sido dura demais para mim; vivia murmurando contra a mesma. O meu constante ato de protesto, penso eu. Não importa muito o que eu penso, só o que eu faço. Eu nada faço, no entanto, o que talvez seja minha sentença de inutilidade. O ato de andar na rua se faz  monótono demais para se praticar sem minhas constantes teorias. Acabo o fazendo sem perceber. Presto atenção no que não devia. Os olhos espremidos de uma criança choramingando, os pés finos e compridos da moça na minha  frente, os flashes de um casaco listrado no meio da multidão. Não presto atenção no que devia. Quase tinha sido atropelada por uma bicicleta, pisaram algumas vezes nos meus sapatos novos e havia sido empurrada contra uma pessoa de forma involuntária. Olha a rua, repetia para mim mais vezes do que queria.  
         Continuo a andar e percebo em um olhar muito rápido o rosto de um velho conhecido. Os flashes do casaco se misturam com o listrado do olhar. Tento aos poucos o alcançar e quando quase consigo começo a pensar nas consequências do seguinte ato. Paro e penso - palavras quase nunca vistas na mesma sentença antes. Parada no meio da rua, desencontrada no meio dos meus conflitantes pensamentos e sentimentos. Desencontrada era a minha definição. Queria eu, no entanto, ser encontrada? Não saberia dizer com precisão. Andei, tentando em segundos tomar uma decisão importante. Não era boa em tomar decisões, nunca havia sido.                                                    
       Talvez pudesse me arrepender depois. No entanto, voltei a andar determinada dessa vez. Porque não haveria de olhá-lo uma última vez? Não havia motivos plausíveis. Talvez pudesse até ouvir sua voz trêmula como a minha e me ver refletida naqueles olhos listrados.  Pensava em todos os detalhes do seguinte encontro enquanto o mesmo se aproximava. Toquei seu ombro. Ele se virou. “Desculpe senhor, pensei que era outra pessoa.”   

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Inverno interiorano


         Pensava nas bonitas manhãs de um inverno interiorano; suas brisas frias e pequenos raios de sol que se esticavam ao máximo a fim de iluminar certos olhos, esquentar certas mãos e tornar o respirar menos denso. Queria uma manhã daquela, mas não a tinha. Ao contrário, existiam tantos raios de sol que ninguém poderia ser considerado especial ao ser tocado por um. Não, isso não é uma reclamação; trata-se apenas de uma consideração sobre a inconstância do clima. Pode parecer geografia, mas, essa nunca se mostrou uma matéria de fácil compreensão; para mim é literatura, não por ser fácil compreender, mas, por ser bonito, e por te tornar especial. Existem livros e livros com detalhadas descrições de relevo, clima, precisando corretamente todos os pontos devastadores de uma natureza incansavelmente bela; isso é tudo o que eu consigo escrever sobre o hoje, é bonito, azul e definitivamente não é um inverno interiorano. Continuava meus devaneios quando fui retirada deles por um encontrão.  Não ouvi nenhum pedido de desculpas e continuei a andar nas ruas apertadas da capital. Onde estão meus óculos? – perguntei a mim mesmo em um tom mais alto do que eu queria.
            Meus óculos não estavam lá e apesar de parecer que eu não precisava deles, eu precisava. Dei meia volta, 180°. Fui correndo dessa vez, estava atrasada demais pra pensar na minha falta de preparo físico e nos saltos do meu sapato. Aqueles paços largos me fizeram cair nos braços de um alguém familiar. Parecia que eu já havia visto aqueles olhos – o rapaz do encontrão, penso eu. Dessa vez não teve jeito, eu tive que pedir desculpa. Ele me olhou, me ergueu e não disse uma palavra.  Continuou andando, nem se virou, nem sussurrou nada. Fiquei surpresa com a total falta de comunicação do ser. Desisti dos óculos, voltei na direção de onde eu vinha. O sol brilhava mais que nunca e eu dizia baixinho - Me torne menos especial e brilhe um pouco menos. Meu inverno interiorano se esvaia cada vez mais quando eu voltei a trombar com a mesma pessoa, pela terceira vez. A pancada dessa vez foi tão forte que ambos caímos no chão.
Ele me olhou de um jeito que ainda não tinha feito, levantou e me ajudou a fazer o mesmo. Eu que não diria mais nada a ele já me virara e continuara a andar quando senti sua mão no me braço. Virei, ele sorriu. Tentei com todas as forças não sorrir hoje, mas, a vida continua me dando essas várias oportunidades – ele disse. Eu sorri.  Senti-me especial como numa manhã de inverno interiorano.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Antes do quê?

     Escutei uma buzina no fundo de um pensamento vago e distante, percebendo só então que a realidade havia sido trocada por aquele mesmo pensamento. Eu que antes me via num mundo de realizações, a mais doce utopia, agora me via sendo puxada por aquele som tão nostálgico, de certa forma, ao que chamam de mundo real. Repetiu-se; mais demorado, agudo e justificado por uma luz que refletiu o verde dos mais belos pastos. Era também verde, um tipo de sinal, sim, era esse o nome. Eu enfim olhei ao redor e notei que estava dentro do carro, do mesmo carro de antes. Antes – antes do quê? Talvez fosse depois, depois do sonho. Tentava fazer o carro andar quando mais uma vez escutei aquele barulho enlouquecedor que vinha provavelmente de alguém impaciente. Impaciência palavra que descrevia o estado de espírito de cada ser no mundo fora do sonho. O que era sonho ou realidade eu já não sabia. Durante aqueles poucos minutos eu pude ter alegria de sentir a realidade como a utopia e vice versa.
        Vaguei pela cidade como se fosse a primeira vez depois de anos sem notá-la. Tentava captar suas luzes e abri as janelas pra sentir o seu vento. Fechei os olhos mesmo sabendo que não podia e por um momento estive de volta lá, na utopia mais doce. Ouço mais uma vez o barulho, o mesmo de antes. Vejo-me voltando a abrir os olhos, como se estivesse desligando alguma coisa, do jeito mais demorado possível. Quando enfim os abro já nada mais via além de luzes tão próximas e nada mais ouvia além da buzina. Acordei, pensava eu. Não, estava enganada; eu dormia, só não sabia.
         O barulho cessara, a luz não. Ainda refletia em meus olhos, podia senti-las mesmo quando ainda ponderava na possibilidade de não os abrir.  O cheiro não era bom e aos poucos, como minha visão turva, voltei a sentir meus membros. Olhei ao redor e preferia fechá-los novamente, voltar de onde eu vim. No entanto, não era possível, aquele era o fim dos meus desvios de realidade frequentes. Aprendi da pior maneira, do jeito mais doloroso. Chorava, não pela dor física, mas, por estar ali abrindo mão da realidade que eu queria. Fechei os olhos e voltei a ela mais uma vez, desejando não deixá-la. Escutei uma buzina no fundo de um pensamento vago e distante, percebendo só então que a realidade havia sido trocada por aquele mesmo pensamento.