sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Gratidão




        Com os olhos fechados, eu pude sentir o calor do sol no meu rosto. Ainda sim, não os abri. Sabia que o dia havia começado e presenciava o início do acordar, quando ainda não o queria. Respirei fundo e os abri; vi a janela do meu quarto que transpassava a luz entre as frestas da persiana. Sentei. Pensei no dia anterior, pensei em possibilidades futuras. Uma das minhas muitas características era não pensar no presente. Não que eu a percebesse na época, só consigo a perceber agora. Coloquei meus pés no chão e pude ouvir ao fundo o som das minhas incertezas dentro da minha cabeça. O que fazer quando nossas dúvidas sobre nós são maiores que nossas certezas? Eu não saberia dizer; na maior parte do tempo me via pensando no que eu ainda não tinha, no que eu ainda não era. Vivia minha vida nos sonhos futuros, esquecendo da realidade presente. Não era uma realidade ruim, mas acredito que minha habilidade de sonhar era particularmente grande. Não digo nada disso com orgulho, talvez até me faça parecer ingrata com as bençãos de Deus que eu recebo. Espero não mais ser, se algum dia fui. 

   Percebi o quão errado tudo estava quando, nesse dia de manhã, coloquei meus pés no chão. Ao colocá-los no chão frio, olhei pras estantes do meu quarto e vi um dos meus antigos diários. Abri, li e chorei por todas as minhas pequenas lutas já passadas. Chorei porque percebi que havia crescido e fui grata por isso. É difícil para mim não pensar nas futuras lutas, mas agora tento, com tudo o que há em mim, lutar as presentes sem desmoronar. É difícil também não pensar nas minhas projeções futuras, tão utópicas quanto irreais, mas agora eu tento projetar metas à curto prazo. Sempre sorrir, evitar grandes conflitos, estudar quando chegar em casa, tentar não chorar essa semana (ainda trabalhando nessa última). Elas têm me ajudado a ser grata pelo presente. 

    Agora tento perceber as pequenas vitórias nos dias comuns e ser sensível a elas me faz ser sensível a tudo. Mas tudo bem, essa é uma outra lição. Hoje eu fui grata pela luz do sol no meu rosto de manhã, por ter uma família incrível, amigos. Hoje eu fui grata por poder presenciar momentos como o da foto. Que venham novos desafios, que permaneçam os existentes, mas que eu nunca perca as alegrias da vida. 

34. Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã trará as suas próprias preocupações. Basta a cada dia o seu próprio mal.
(Mateus, 6)

sábado, 9 de julho de 2016

Ser

Me ajuda a ser
Quem queres que eu seja
Porque já não mais sou
Nem mais tenho
Só resplandeço, nem reflito

Pra ser um espelho
Precisaria saber sê-lo
Não sei, de nada, de tudo
Do quê importa, no final?
A tristeza me domina
Já posso ouvir traços de ingratidão
Em discursos futuros

O que haveria de vir eu ainda não sei
O que se foi, já esqueci
Só sobra o que é, que não tenho
Que eu não sou
Já não mais sou

*Só a cruz esconderá quem você não é
https://youtu.be/iLLydSZOR8k

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Medicina


Peguei-me mais uma vez sendo esvaída pela vida. Não que escrever não fosse mais prioridade, ainda é. Às vezes a vida é tão complicada de ser vivida que não nos sobra tempo para observá-la do jeito que ela merece, quanto mais para descrevê-la. No entanto, fui parada bruscamente pela única coisa que me impedia de continuar estudando freneticamente a Medicina, minha saúde física. Não é uma reclamação, a Medicina é antes de tudo um presente de Deus que eu pretendo aprender da melhor maneira possível. No entanto, nada mais entrava na minha cabeça. Parei de estudar, o que pra mim era mais preocupante do que estar doente em si. Foi assim que eu me vi sentada em algum hospital, pela manhã bem fria de um final de semana qualquer. Foi assim que me vi quase obrigada a observar a vida enquanto esperava pelo atendimento.

Aos poucos fui trazendo a percepção que há tanto me faltava, torcendo para que não tivesse sido excluída em algum refinamento sináptico recente. Não fora. Percebi o ambiente frio e as (outras) pessoas doentes dentro dele. Deixei meu coração ser tomado pela empatia dos rostos alheios. Passei a pensar que existiam problemas maiores do que não estar estudando naquele momento. E era verdade, pois os momentos seguintes foram interrompidos por gritos de socorro que vinham de fora do hospital. Eu pude ver dois homens que não eram do hospital entrando pelos seus corredores procurando alguma maca. Eu também pude ver quando colocaram o homem desacordado nela. Queria saber mais, era impossível pra mim, depois que entrei na faculdade, não pensar no que aconteceria se eu já trabalhasse. Era um sentimento comum pra mim. Ir aos hospitais e perguntar-me em segredo quem seriam meus futuros colegas, se eu faria bem tal procedimento. Mas foi a primeira vez que eu me fiz perguntas sobre as vidas dos outros seres humanos, dos pacientes.

 Uma voz fina interrompeu meus pensamentos me chamando para a consulta. Eu fui; na verdade, não tinha nada se comparada com aquele homem. A médica me ouviu com pouca ou quase nenhuma atenção – transcreveu o que eu precisava na hora. Lá fui eu, andando pelos corredores atrás da sala de medicação. Na minha busca, acabei entrando onde não devia e vi o homem antes desacordado, agora consciente. Gosto de pensar que ele sorriu pra mim, apesar de tê-lo visto apenas de relance. Enfim, achei a sala e enquanto era medicada fiquei feliz pensando no possível sorriso. Essa é a história de como eu aprendi mais sobre Medicina observando seres humanos do que os estudando pelos livros.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Tudo o que me falta

      As férias acabaram, talvez nunca tivessem começado. Refiro-me, no entanto, à algo ainda maior do que as simples férias escolares. Minha habilidade de descrever metáforas é limitada, mas ultimamente venho pensando no quão adormecida minha vida era. Entrar na faculdade despertou tudo o que dormia, e ainda fez-se criar diversas outras coisas que não existiam. Tenho me descoberto permanecendo quem eu sempre fui. Que estranho pensar assim, talvez você diga agora. Quando você assume que tudo é, nada mais é. Foi estranho andar pela primeira vez nos corredores, fui estranho me sentar nas primeiras aulas, conhecer pessoas, experimentar coisas novas. A partir de um ponto especifico, que me pego tentando definir, tudo antes estranho passou a não ser. Menos a minha específica pessoa, essa, se um dia foi estranha, continua sendo.

     Estou tentando dizer muitas coisas, talvez não tenha entendido nenhuma delas. Peço perdão, eu avisei da limitação das minhas metáforas. Tentarei me manter ao simples; a vida vai bem, difícil, mas bem. Tenho estado triste algumas vezes, felizes em outras. A agitação da vida a torna mais simples de ser reparada. Eu disse reparada, e não vivida. A vida é difícil de ser vivida; dizem que as dificuldades modelam nossas virtudes, espero que sim. Tento me ater as verdades que eu conheço, as que são mais do que suficientes pra me manter sã. Eu tenho a Deus, minha família e amor, muito amor. Amor pelas pessoas, pela profissão que o Senhor escolheu pra mim, amor por todos os meus amigos queridos.

   Eu disse a você que tenho medo de não ser suficiente, em alguns momentos é verdade, em outros não. É um sentimento difícil de se viver com, uma vez que vai contra tudo o que Deus já fez por mim. Tenho aprendido que algumas lutas precisam ser contra nós mesmo. E assim tenho feito, e continuarei enquanto o Senhor me der forças. A falta de tempo me incomoda um pouco, mas presumo que seja mais uma das coisas estranhas que depois não mais será. Queria dizer mais um milhão de coisas, mas agora você sabe, me falta tempo.  
                                                     Clarissa.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Sobre o amor

  Sempre nos dizem sobre a qualidade do amor e da sua maravilhosa essência; creio eu que não nos dizem que a essência se esvaia e que a qualidade, às vezes, é só um deslumbre. Gostaria de dizer que meu intuito não é discutir sempre o que é o amor, pois é um assunto inesgotável, e me tornaria no mínimo entediante; entretanto, sempre me pego voltando para o mesmo. Isso acontece porque eu realmente acredito que amar seja a chave para a construção de um mundo melhor. E, caro leitor, acredite quando eu digo que seria muito mais útil me ater aos fatos e ser assim uma boa cronista; ter entre minhas milhares de crônicas apenas algumas dezenas sobre o amor, como excelentíssimo Rubem Braga. No entanto, é com imenso pesar que digo que dentre as milhares de crônicas do Rubem, as minhas favoritas continuam sendo aquelas poucas.

   Eu sinto vontade de chorar pensando nas tantas coisas que ainda podem acontecer, faz parte de mim me emocionar por futuros tão distantes quanto irreais. Culpo os filmes, livros e poesias que tendenciam nosso coração, já disposto a viver uma vida sossegada, a sonhar com os mais subjetivos atos de amor; tão subjetivos quanto irreais. Não que eu seja pessimista, ainda acredito no amor. No entanto, a realidade me leva quando possível. Sempre que me vejo sendo levada pelo ceticismo ou pela utopia, abro os olhos e tento procurar exemplos reais do mais lindo amor que existe. E existe, bem perto até, no quarto do lado eu vejo meus pais dançando ou sorrindo.

   Ali, naquele instante, tudo acaba. Minhas duvidas e questões sobre o amor são substituídas pela certeza da sua pureza e existência. Talvez algum dia eu tenha minhas próprias experiências amorosas para aqui compartilhar, por enquanto permaneço extasiada com a beleza dele.  

domingo, 29 de novembro de 2015

Uma menina de laço azul

     Difícil pensar em algo mais querido do que o falar. Naquele momento, no entanto, o silenciar fazia total sentido. Jamais poderia dizer a ele o que foi presenciar aquele olhar. Eu sabia o que significava, eu sempre o via de longe e nunca tinha sido pra mim. Mais uma vez, não era. Não queria estar ali, mas estava. Eu olhava no fundo dos seus olhos na esperança de estarmos juntos, compartilhando do mesmo universo lúdico, talvez. Não importava muito, existiam outras bilhões de coisas que compartilhávamos. E ainda havia o mistérios das outras que ainda não sabíamos. Precisava não pensar agora, precisava sair. Sair pra onde? - eu pensava. Nada dizia.

    Nada fazia também; existiu um período de tempo no qual eu fiquei estática, esperando que ele me dissesse o que tinha sido aquilo. Ele sorriu e disse ali o tamanho do seu amor. Não por mim, nunca por mim. Quis chorar, "você não pode chorar". Olhei ao redor. Vi uma menina de laço azul nos cabelos finos; ela encarava uma das muitas lojas de brinquedos a frente. Não queria todos, como o resto das crianças. Eu conseguia vê-la apontando um, repetidamente. Daria qualquer coisa pra trocarmos de lugar, só naquele momento.

   "Você não vai dizer nada?" - ele disse. Não queria dizer nada, e então, sorri. Tentando transmitir algum tipo de mensagem contrária no mais expressivo ato de contentamento. Talvez ele conhecesse meus sorrisos tanto quanto eu conhecia os dele. Nada falamos, morri por dentro. Olhei ao redor. Vi uma menina de laço azul nos cabelos finos; ela sorriu - por favor, sorria pra mim, eu pensava. Ela, no entanto, o olhava, enquanto o mesmo fazia a melhor de suas caretas. Eu ri, a menina também. Ela acenou e eu quis ir com ela. Talvez nos divertíssimos juntas com o seu mais novo brinquedo; pelo menos, uma de nós estaria rindo.

domingo, 25 de outubro de 2015

Não me deixe

Quando eu era criança, minha mãe colou estrelas no meu teto
Eu gostava de olhar as tais
Nunca me disseram que elas eram reais
Porque, na verdade, não eram

Elas iluminavam o meu quarto
Do mesmo jeito que as outras iluminavam o espaço
Nunca disse a elas que eram falsas
Porque, na verdade, não eram

Talvez elas tivessem menos contempladores
No entanto, ninguém nunca amou estrelas como eu amei aquelas
Que grandes afastadoras de temores


Lembro também quando elas mesmas se foram
Quando minhas estrelas se foram, minha mãe colou nuvens na minha parede
Eu as amo tanto quanto amei minhas estrelas

Tinha estrelas, quando ninguém mais as tinha
Tenho um céu, quando ninguém mais o tem
O brilho das minhas constelações nunca permitiu que eu temesse a noite
O azul do meu céu nunca permitiu que eu temesse as manhãs

Não me deixe sem estrelas
Não me deixe sem nuvens
Não me deixe 

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Janela



            Fui até a janela experimentar minha dose diária de luar e de um céu escuro nem tão estrelado quanto o esperado. Tudo era igual à noite anterior; os mesmos carros e prédios perdidos na imensidão de prédios e carros do subúrbio carioca. Deixei-me ser carregada pelas reflexões de um dia turbulento e cansativo. Como consequência, meu olhar se esvaiu na grandeza das nuvens abatidas que destoavam o azul escuro da noite. Fiquei assim por alguns minutos até que as luzes do prédio vizinho me chamaram atenção. Havia algumas delas acesas, mas em apenas uma existia um homem. Parado, imóvel. Olhei algumas vezes antes de garantir que não era um boneco ou algo do tipo.  Talvez estivesse me olhando com a mesma intensidade que eu o olhava, não saberia dizer.  Poderia ser qualquer um, poderia ter qualquer vida que eu quisesse imaginar. Primeiro pensei na possibilidade de ser, obviamente, meu grande amor. Não havia inspiração suficiente.
           Então pensei que talvez ele pudesse ser o amor de outro alguém. Ela não estava ali, onde ela estaria? Longe, tão longe que o simples ato de encarar a noite o fazia lembrar-se do imenso mundo se comparado ao seu ínfimo amor. Na verdade, seu amor era ínfimo apenas se comparado a isso. No que diz respeito às muitas outras comparações, ele era em tudo maior. Talvez, ambos perderam-se na vasta imensidão do próprio amor. Ele olhava as (poucas) estrelas imaginando que ela as olhava também. Ela assim não o fazia. Ao contrário, estava em casa, dentro dela, trabalhando quando não devia para nunca olhar as estrelas. Ela não poderia.
                Ele não sabia disso. Alguém chegou ao quarto, alguém o abraçou, o beijou. Senti-me mal pela menina. O que havia acontecido com o vasto amor? Perdeu-se em si. Estava ofendida demais para continuar na janela. Um amor finito é ruim se vivido na realidade; se, no entanto, é vivido na fantasia é ainda pior. Fui dormir, cansada das minhas desconstruções, torcendo para que não sonhasse.  


sábado, 26 de setembro de 2015

Desconstruir

Guarde a essência de quem você é
Em um lugar que sempre possa achar
Pois ninguém na vida o faz por você

As pessoas estão centradas em ser, ter
Tudo o que lhes faz feliz
Eu, no entanto, esses dias aprendi
Que é muito mais difícil não ter, não ser
E mesmo assim, ser feliz

Agora, por exemplo, estava pensando nas futuras rimas
E nenhuma tenho
Não que seja um grande exemplo de desconstrução
Mesmo assim, estou feliz

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Só o sol


Eu sinto mais falta do dia a dia porque eu não o tenho mais 
Escrevo sempre porque nada tenho mais
Nada tenho ainda
A diferença entre o antes e o depois é só uma linha

Não a cruzaria
Prefiro estar onde tudo ainda precisa ser resolvido
Onde nada do que já foi pode ser mudado
Como anda a vida em sua calmaria?

Não sinto mais as ondas
Ando anestesiada pela inércia do mar, talvez nem esteja mais nele
Procuro a beleza na vida parada
Confesso que é mais fácil a ver no movimento
Não sinto mais o barco, só o sol
Não sinto mais a brisa, só o sol
Não sinto mais a mim, talvez eu seja o sol